7 de outubro de 2015

Frutas & Flores

Vamos conversar,
Conversar,
Conversar...

Vamo-nos aproveitar das palavras
E espremer cada uma delas
Como se fossem laranjas.

Vamos rodeá-las de silêncio,
Para que cada uma delas
Seja um botão de rosa a abrir.

Vamos fazer um altar sagrado
Onde nossas palavras se casam
E onde o universo é a única testemunha...

E aquelas palavras mais espinhosas
Vamos coroá-las com frutas e flores.

Cristina, 8 de Maio de 2015

14 de agosto de 2015

Aqui, agora II

Serra do Caramulo II


















Gosto de uma serra para olhar,
porque quando olho para o alto
sinto-me pequena, insignificante
perante a perfeição da natureza.

Carrego cá dentro um desejo.
Um abrigo das tempestades
e não, um abrigo nas tempestades.
Enfim, desejo descansar...

Árvores também, para contemplar,
sua diversidade, sua singularidade,
suas flores, seus frutos,
sua natural simplicidade.

E o céu acima da minha cabeça
p'ra nunca esquecer de perguntar:
porquê durante o dia só um sol
e há noite tantas estrelas a brilhar?

E quando o vento, meu amigo,
por mim passar ele vai-me abraçar,
seja numa suave carícia,
seja de rajada p'ra me balançar.

E meus olhos vou fechar,
meus punhos cerrar
e meu peito acalmar,
porque, de verdade, eu sei...

Eu sei...

Que o caminho é muito longo...
Tão longo que são vidas inteiras
e mais vidas inteiras.
Até agente, de verdade,
aprender a amar...

Cristina, 10 de Julho de 2015

Minhas paixões

Quem me dera
ser eu capaz
de te resistir
oh paixão visceral

uivo da lua cheia
faro do predador
veneno de cobra
convulsão de dor

terramoto-inundação
erupção vulcânica
tsunami
vendaval-tufão

força da natureza
ritmo das estações
cordilheira dos Andes
chuva das Monções

dança do ventre
ciclo lunar
energia primitiva
origem-despertar

vem-afinal
já não quero resistir
afinal-agora
eu quero-te a ti

"Coisa estranha, o desejo de certos prazeres é uma parte de minha dor"_Gibran Kahlil Gibran do livro "Areia e Espuma", Aforismos Selecionados

Cartas para o meu amor III

Penso em ti
 e
ponho-me a pensar
...
não importa
de verdade
não importa mesmo
eu sei
mas
eu penso
...
quando estou só
comigo mesma
contemplando a natureza
sinto uma amorosidade
uma bastança
uma gratidão
até

quando estou só
comigo mesma
ou partilhando
com amigos do peito
as investidas do escopro da vida
eu fecho meus olhos
e sinto uma resignação
até
também

mas ainda assim
eu penso
eu penso em ti

nesse
um dia
qualquer

que eu esteja sentada
num penedo
à beira d'um riacho
escutando 
as suas águas silenciosas
e tendo-te como companhia
eu
saberei
que temos muito em comum

nesse
outro dia
qualquer

quando estivermos juntos
lado a lado
 os dois
deitados na relva
à beira d'um rio
escutando
suas águas correndo
eu saberei
que somos amigos

mas no dia

que olharmos juntos 
na mesma direcção
 de mãos dadas
e virmos no mar 
e no sol esplendoroso
esse oceano infinito
chamado amor

Aí eu saberei
saberei
que agente se ama
e
para qualquer onda
que se levante nesse mar
nós
estaremos juntos
lado a lado
de mãos dadas

é nisto que eu penso
quando penso em ti
...

6 de agosto de 2015

REC _ 1


SEMPRE

SEMPRE TE VOU ENXERGAR
SIMPLES
PORQUE TE AMO
E NO AMOR TUDO É CLARO

INFERNO
INFERNO É A ESCURIDÃO

SEMPRE TE IREI ESCUTAR
SIMPLES
PORQUE TE AMO
E NO AMOR CABEM TODAS AS PALAVRAS

INFERNO
INFERNO É SER MUDO E SURDO

SEMPRE VOU TER UM LUGAR P'RA TI
SIMPLES
PORQUE TE AMO
E NO AMOR CABEM TODOS OS LUGARES

INFERNO
INFERNO É NÃO AMAR

SEMPRE VIVEREI
SIMPLES
PORQUE EU AMO
E NO AMOR CABE A VERDADE

INFERNO
INFERNO É EXISTIR

APENAS

19 de julho de 2015

Não digam...

Serra do Caramulo















Não digam...
a
Não digam que não está
à frente dos olhos de todos.
Não digam,
porque eu vejo à frente dos meus.

Quem ordena as árvores
para que nunca se esqueçam,
nunca, de a cada outono
pintar suas folhas de mil cores?

Não digam...

Não digam que não está
à frente dos olhos de todos.
Não digam,
porque eu vejo à frente dos meus.

Quem comanda o nascimento
de um bebé da barriga
de sua mãe? Que o ama.
Quem lhe diz quando chega a hora?

Não digam...

Não digam que não está
à frente dos olhos de todos.
Não digam,
porque eu vejo à frente dos meus.

E a subtileza agradável e doce
dos vales e das serras verdejantes?
Ao olhar o firmamento e sentindo
o seu vento nos batendo no rosto.

Não digam...

Não digam que não está
à frente dos olhos de todos.
Não digam,
porque eu vejo à frente dos meus.

E o frescor d'um mergulho no mar?

E a alegria do sol sorrindo gratuito?

E a brisa da tarde varrendo a areia,
num pôr-do-sol de inesquecível beleza?

Não digam...

Não digam que não está
à frente dos olhos de todos.
Não digam,
porque eu vejo à frente dos meus.

E à noite? Sob um céu estrelado?

Não digam...

Nem aos grilos cantando o verão.

Nem aos enamorados.

Cristina, 1 de Dezembro de 2014

10 de julho de 2015

Aqui, agora



















Nestes dias de céu branco
Vive-se aquele "igual"
Tudo é áspero e desnudo
Uma casca sobre o que é real

Nestes dias de céu branco
Tenho um pé em cada lado
Meus olhos virados p'ra cima
Fico, assim, imóvel, neste estado

Tenho sonhos, tenho ânsias
Minha vontade é um furacão
Um motor em funcionamento
Recolho-me e tudo é imensidão

Por um momento expludo
E consigo abraçar o mundo
Regresso ao meu caminho
Sorrio e sigo no curso do rio

Um prazer imenso em nada
Uma alegria só por existir
A simplicidade da natureza
contida no vôo d'um colibri

Árvores desnudas em fundo azul
Pedras musgadas, desordenadas
Vento passando vai-me abraçando
Agita as sombras e lembra-me o sol

Cresce-me ânsia no peito
Por descobrir o que eu não sei
Quero ir, mas quero ir a correr
P'ra chegar lá ao amanhecer

Depois...

Sorrio mais uma vez
E fico quieta de novo
O sol parado no céu
Tirou-me dos olhos este véu

Por fim...

Regresso aos meus pés
E abro meus olhos de novo
Acordo devagar, saio desta visão
Dou o primeiro passo

E vou caminhando por este chão...

Cristina, 18 de Fevereiro de 2015

7 de julho de 2015

Pequeno Pedaço de Paraíso

O portão do meu desejo
É onde eu quero
Um dia
Chegar
Para ser
Ainda mais feliz

Eu quero poder descer
Aqueles degraus de pedra
Ladeados de verdura
E na primavera
De narcisos amarelos
E túlipas multicolores

Parecem poucos degraus
Eu sei...
São só quatro ou cinco
Mas têm o valor
De uma vida inteira

E quando meu pé tocar
Aquele granito frio e áspero

Minha mão vai segurar
Com firmeza a tua mão
...pequenina

E quando meus olhos
Encontrarem os teus
...pestanudinhos

Vamos dizer segredos
Na linguagem do universo

Cristina, 8 de Maio de 2015

Deixa-me, só

Parte integrante da instalação artística "Umbrella Sky Project" (Águeda)

Deixa-me, só.
Acaso sabes tu o que eu sou?

Observa uma tartaruga centenária
nadando, em pleno oceano, devagar,
tão devagar, quase imóvel...
Acaso acha-la perdida?

Deixa-me, só.
Acaso sabes tu o que eu sou?

Vê um bando de andorinhas
cantando, no meio do céu,
a anunciação da primavera.
Acaso achas sua alegria desnecessária?

Deixa-me, só.
Acaso sabes tu o que eu sou?

E a árvore imponente,
sozinha no meio do prado,
sabendo apenas da sucessão das estações.
Acaso desvalorizas sua quietude?

Deixa-me, só...

E um pedaço de relva?
Acaso acha-lo insignificante?
Poderá ele esquecer-se, algum dia,
de realizar sua fotossíntese?

E o sol...?

E a lua...?

E a galáxia...?

E o universo inteirinho...
Acaso acha-lo inconsciente
de sua infinitude?

Deixa-me, só.
Tu não sabes o que eu sou

Cristina, 23 de Março de 2015

29 de junho de 2015

Pessoas

Qual pessoa diria
que eu, pessoalmente,
sou pessoa de poucas palavras?

Que eu, na minha personalidade,
sou, até, pessoa simplória,
mas não pessoa sem sal.
Que eu, umas vezes, sou persona non grata,
outras tantas, sou uma pessoa amada.

Que eu, em pessoa,
sou várias pessoas.
Como o Pessoa...

E eis que se apresenta
a primeira pessoa, que,
do alto da sua pessoalidade,
diz, com voz bem colocada:
- Eu sou bem apessoada
e um tanto impessoal!
Eu sou pessoa bem sucedida,
eu sou a pessoa tal!

A segunda pessoa
vem, por interposta pessoa,
acrescentar seu toque pessoal:
- Tu és pessoa comum,
mas julgas-te acima das outras pessoas!
És uma pessoinha!

A terceira pessoa,
sendo a mais apessoal,
acrescenta:
- Não é nada pessoal,
mas, afinal...

...ela é pessoa colectiva,
não é pessoa individual,

Cristina, 29 de Abril de 2015

"Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens"_Fernando Pessoa

11 de junho de 2015

A verdadeira medida
















Perante ti tenho a minha medida
e nos pratos da minha balança
minha inquietação oscila
Procuro...
a verdadeira medida

Perante o céu tenho a minha medida
e nos pratos da minha balança
minha incompreensão oscila
Procuro...
a verdadeira medida

Perante a ignorância fico imóvel
ergo minhas mãos em prece
fecho meus olhos devagar
Recolho-me...
fica o peso do silêncio

Perante a dor tenho a minha medida
e nos pratos da minha balança
minha raiva teima...
Meu caminho é procurar
a verdadeira medida

Perante a minha respiração
sinto aflorar minha consciência
ergo minhas mãos em prece
fecho meus olhos devagar
Recolho-me...
sou uma nuvem de agradecimento

Perante a minha balança
ergo as minhas mãos em prece
abro meus olhos p'ro céu
Regozijo-me...
e meu agradecimento é um sol

Perante o Amor tenho a minha medida
e os pratos da minha balança ficam imóveis
meu sentimento não tem peso
Procuro...
a verdadeira medida

Cristina, 21 de Dezembro de 2014

1 de junho de 2015

No parque infantil

Em homenagem ao Dia da Criança, inauguro uma nova categoria neste meu espaço.
Como sempre, espero que apreciem, desta vez deixo-vos uma crónica.

Imagem daqui

     Ela levou, mais uma vez, a filha ao parque infantil. Ela gosta de ir lá porque, assim, ela também vai ao parque infantil. Ela não é mãe solteira, mas é como se fosse...a separação, tal como todas as separações, foi, e ainda é, bastante difícil.
     Já tinham passado quase dois anos desde que ela deixara o pai da sua filha e, desde essa época que ela resistia a qualquer interacção suspeita de se configurar numa troca amorosa, for ela de que tipo for; no entanto, de vez em quando arriscava-se e permitia-se a "micar" determinadas figuras masculinas que, por alguma razão, mexiam com ela.
   
     Nesse dia, lá pelas suas 15 horas, entrou parque adentro um rapaz com uma criança de 5 ou 6 anos. O garotinho, mal entrou - claro! - correu logo, desenfreado, para o seu brinquedo preferido: um combinado de dois escorregas com túnel e, seu jovem pai, enquanto acendia um cigarro, acorria ao local para se certificar de que o seu rebento não se iria machucar com alguma acrobacia mais arrojada. Quando ela o viu, sentiu, desde logo, algum interesse. Ele era giro, mas creio que não foi essa a característica principal que a levou a interessar-se.
     
     A tarde seguia pacata e algo inquieta, porque ela, bem camuflada atrás dos seus óculos escuros, fazia figas para que se proporcionasse uma daquelas conversas de ocasião desinteressadas e, a coisa deu-se quando os dois petizes resolveram andar no par de baloiços existente. Ele e ela sentaram-se no muro, mesmo atrás e, naturalmente, a conversa surgiu, mas ela nem perguntou do garoto, era óbvio que ele era filho. Enquanto falavam das excelentes condições daquele parque ela era assaltada por uma questão, muito importante para ela naquele momento: a idade dele. Inevitavelmente ela começou a fazer contas de cabeça: 
- Ora bem, ele terá trinta e poucos, ainda não tem trinta e cinco, muito embora também pudesse ter vinte e cinco, passava perfeitamente por vinte e cinco, mas vinte e cinco não, com um filho daquela idade, dificilmente os terá...deve ser mais para os trinta e poucos, exactamente, deve ser pela minha idade, um pouco menos, talvez - concluiu, logo após a curta e simples conversa entre os dois.

     Ainda não tinha passado uma hora quando pai e filho foram embora.
- Vamos Vitinho! Vamos embora, que hoje tens karaté! - disse-lhe o pai, enquanto esfumaçava mais outro cigarro.
Em jeito de despedida, daquele que lhe fizera subir a pulsação, ela foi-o seguindo, com o olhar, até os dois entrarem no carro e, foi neste momento preciso que o seu interesse, por ele, subiu exponencialmente.
O carro...bem! O carro impressionava qualquer ser humano, por mais imaterialista empedernido que fosse: belas linhas de engenharia alemã, alta cilindrada, cor gira, grande, enorme mesmo.
- Uau!! Imperdível! Ainda por cima endinheirado! Sim, porque só quem é bastante endinheirado é que pode ter um veículo automóvel de tal categoria - ela ia encaixando as peças todas, enquanto o seu cérebro libertava doses generosas de serotonina.
- Um jovem pai, responsável, maduro, giro, atraente, tudo de bom; quem sabe um executivo, inteligente, rico, bem sucedido; com sorte, se lhe conseguisse cheirar o pescoço, reconheceria de imediato aquele odor a Eternity da Calvin Klein e sentiria aquela barba, de um dia, a raspar no meu rosto... - ela não parava, porque ele era o homem perfeito capaz de preencher toda a sua fantasia e carência.

     Mas havia um senão...Um item que a intrigava, algo que lhe escapava e que ela não conseguia encaixar - a forma como ele estava vestido. A ideia que lhe dava era que, ultimamente, ele não teria ido muito às compras: quer pelo erro nos tamanhos, quer pela inadequação da sua indumentária com a sua condição de bem-sucedido e bem-talhado. 
Neste momento sua imaginação voa, voa longe, tão longe que encosta a um canto qualquer vôo de longo curso da TAP: algures numa ilha paradisíaca, da sua imaginação, ela e sua melhor amiga tomam uma bebida exótica, com chapelinho, frutas e flores; pés descalços e areia branca, olhos docemente perdidos no azul do mar e do céu; no ar circula uma temperada e doce brisa que apenas é perturbada pela perplexidade com que ela lhe descreve a roupa do rapaz:
- ...jeans muito justos a apertar na cintura convenientemente posicionada abaixo da pequena barriguita, ligeiramente proeminente e, deixando, também, aquele "bumbum gostoso" bem à vista; sapatilhas de pano, mas de marca, com a "língua" bem puxada para cima tipo "à jovem", mas dando aquela impressão de que as costuras estão prestes a rebentar, porque era necessário um tamanho acima; sweatshirt a combinar, mas tenho a certeza de que se erguesse os braços deixaria, pelo menos, um palmo da tal barriguita, exposta - acabou de falar e tinha um ponto de interrogação na testa...

     Tudo isto conduzia a fértil imaginação dela a um ponto crucial, de suma importância mesmo; conduzia-a à cereja no topo do bolo, o santo graal da existência - O TIPO NÃO TEM GAJA! (gaja que é gaja monitoriza o style do seu Adónis, certo?)
De repente o cérebro dela ficou todo ocupado com esta ideia e ela teve uma epifânia, abriu-se a via verde para a auto-estrada de acesso à felicidade e, no seu corpo, a adrenalina circulava a alta velocidade, num confortável e luxuoso carro de alta cilindrada. Ela era uma mulher feliz.

     Já na fase da depressão eufórica, a sua mente continuava a fervilhar:
- Eu já desconfiava que ele era divorciado, mas agora tenho a certeza! Além do mais aquele consumo desenfreado de cigarros é a prova de que ele anda stressado, muito stressado. E a maneira como me falou? A forma desencantada com que articulava as palavras demonstra que, decididamente, está desiludido com as mulheres. Sim, porque, modéstia à parte, eu sei que sou muito atraente.
Para mim aquele stress todo vem só de um sítio: a "ex", aposto que lhe faz a vida num inferno...um filho em comum é um filho em comum. Como eu sei disso! - suspirou ao mesmo tempo que sentia aquela pontada de compaixão por aquele ser humano, fosse ele quem fosse.

- Eu tenho que ver este Adónis de novo! - pensava ela tantas vezes.
Infelizmente, o máximo que ela conseguia era ver o carro a passar na estrada, duas ou três vezes por semana - nas suas discretas e desinteressadas diligências ela descobriu os horários em que ele passava em determinada direcção - e, de facto, ele, efectivamente estaria dentro do carro, mas ainda assim, pairava uma dúvida, porque ela não o conseguia enxergar, imagine-se que, para coroar toda aquela aura de inacessibilidade (pelo menos, para ela) o dito carro tinha vidros fumados.

Por momentos, o cenário idílico voltou e, com ele, a melhor amiga também: as duas estão a rir à gargalhada, enquanto rebenta uma onda na praia e se levanta uma revoada de gaivotas ao pô-do-sol.
- Deve ser para combinar com os pulmões do dono! - tinha dito ela dois minutos antes.
- Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! - riem as duas em uníssono.
...

     Um belo dia, passados dois meses e pouco, ela saiu à noite com uma amiga e foram a um bar, depois de umas minis ela confessou-se:
- Eh pá! Ando a micar um tipo assim e assim, lá de tal sítio. Não o conheço, vejo-o pouco, mas ele tem tal carro.
- Eh pá! Ligo já ao Barbosa, ele é de lá e conhece toda a gente. Vais ver! Vamos descobrir quem ele é - garantiu-lhe a amiga.

Depois de alguma tentativa e erro lá chegaram ao tipo.
Primeiro: nome.
- E o garoto? - Ah! O garoto é irmão dele, parece que veio tardiamente.
Arrefeceu...
Idade? 1989...
Ok, 26 anos... Hum!
Gelou...

Resolvido o enigma.

Hoje, quando ela viu o carro a passar na estrada, já não lhe pareceu ser tão grande como das outras vezes.

A dança da aceitação

A dança da aceitação é bela,
mas é resignada.

A dança da aceitação é resignada,
mas é pura.

A dança da aceitação é pura,
mas é cheia de emoção contida.

Leva-me junto com esta emoção
para os passos dessa dança
transformada na harmonia da aceitação.

Leva-me junto com esta emoção
e porque sei que é o fim da linha
fecho os olhos e danço...

...a dança da aceitação.

Cristina, 5 de Novembro de 2014
k
Imagem daqui

12 de maio de 2015

Cartas para o meu amor II

eu vou apaixonar-me

eu vou apaixonar-me
para sentir uma pequena fagulha
de felicidade inacreditável

eu vou apaixonar-me
para tomar o pulso
ao coração do universo

e quando essa paixão se esgotar
(porque uma paixão sempre se esgota)

eu vou apaixonar-me
 outra vez
para acender
 de novo
essa fagulha em mim

porque para mim
agora
é inacreditável
que exista tal fogo do amor

então
vou riscando o fósforo da paixão

eu
vou riscando o fósforo da paixão

em vez de dançar
ao ritmo do pulso
do coração do universo.

Cristina, 14 de Abril de 2015

Ao som de "Love me like you do"_Ellie Goulding

Cartas para o meu amor

O meu ideal de ti,
meu querido amor maior
é poder dizer que te amo
com todo o meu coração

(simples assim)

e quando vieres para mim
vem mas vem inteiro
que eu não sei completar-te

assim juntos podemos ser
um universo inteiro
infinito

e quando vieres para mim
vem mas vem liberto
que eu não sei libertar-te

assim juntos podemos ser
dois riachos
com encontro marcado no mar

meu querido amor maior

quando vieres para mim
só te peço
trás amor em teu coração

assim juntos podemos ser
mais que duas estrelas 
brilhando sozinhas

assim juntos podemos ser
um sol inteirinho
iluminando a imensidão
                    
Cristina, 4 de Novembro de 2014

Ao som de "Love is all"_Yanni

1 de maio de 2015

Fértil

Deixa esse terreno selvagem
Deixa esse terreno "colhido-a-monte"
Deixa esse terreno ao abandono
Deixa esse terreno virado p'ró céu

Que lhe chova em cima
Que lhe bata o sol
Que lhe doa o vento
Que lhe estale o chão

Não tenhas preocupação...

Não tenhas preocupação,
Porque lá, tem uma nascente,
De água cristalina, inesgotável.

Deixa...

Deixa a chuva inundar
Deixa o sol estalar
Deixa o vento varrer

Cristina, 5 de Novembro de 2014

"Maio maduro maio
quem te pintou
quem te quebrou o encanto
nunca te amou"
Zeca Afonso

20 de abril de 2015

A construção


1
2




agora eu sei
posso dizer
porque eu o sinto

por ser tão verdade
como o sangue
que me corre nas veias

tudo o que escolhemos
para a nossa vida
é uma construção

Cristina, 10 de Setembro de 2014

3

Legenda: Imagens (1,2 e 3) do google

17 de abril de 2015

Abstrato 2 minutos

Fazes-me mossa

fazes-me uma mossa
igual à serra da estrela
profunda e gelada

fico parada
engulo em seco
e lembro-me do contrário
a felicidade
anseio por ela de novo
a minha bitola

fico nesta equação
sem solução
minha mão tremelica
tenho um achaque

dá-me dor de cabeça
meu pé tropeça
cai-me tudo ao chão

depois
vem a calmaria
estou numa pradaria
com cheiro de verão

searas douradas
sorriso aberto
a certeza da vida
tudo tem solução

engreno de novo
volto à minha condição
procuro procuro
sempre com alegria na mão

sobe-me uma coisa
e fico feliz
meu depósito está cheio
vou daqui até Paris

Cristina, 17 de Abril de 2015

"Há sempre pessoas prontas a entrar na nossa vida,
mas se não estivermos preparados para as receber,
elas não vão ficar"_Carolina Torres

14 de abril de 2015

O naúfrago

Imagem daqui

Dizes que encontraste a poesia,
mas não sabes o que fazer com ela.

Dás-me vontade de rir.

Ah! Como me pareces tão coitadinho!

Pareces-me tão coitadinho,
Que me fazes lembrar
As minhas próprias palavras,
De tão coitadinhas que são.

És um náufrago!

És um náufrago à deriva em alto-mar
Segurando-se apenas num destroço de madeira,
Mas julgando nele uma ilha.

Permite que te desengane,
Meu querido amigo.

Se tu, porventura, de verdade...

Sentisses o veludo de seu abraço,
Cheirasses seu hálito de jasmim,
Visses a alegria do seu sorriso,
E a olhasses nos olhos, de verdade.

Ficarias  tão enamorado,
Tão perdidamente apaixonado,
Que não haveria nada a fazer.

Cristina, 26 de Março de 2015

"A escrita é uma forma de terapia"_Carlão

2 de abril de 2015

A comandante

Sou a comandante d'um navio
Navego no mar e na escuridão
Junto com toda a tripulação
Sou a comandante d'um navio

Minha mão firme segura o leme
Meu olho fixo na escuridão
Minhas pernas "bambas" de medo
Olho p'ró céu faço minha oração

Agora vou do meu navio falar
Muitos apetrechos tem ele
O primeiro é a bandeira
Depois a caldeira que o faz andar

A bandeira nem sabia que lá estava
O combustível é doação
Tenho sorte por ter bons amigos
Entre a minha tripulação

Já há muito que navego
Sem em nenhum porto atracar
Até parece que não tem fim
Este oceano este mar

Tenho passado por algumas ilhotas
E minha âncora não lanço
Meus conselheiros asseguram
Não são lugares de confiança

Sou comandante sou tripulação
E até ratos trago no porão
Navego no mar e na escuridão
Junto com toda a tripulação

Do porto que deixei
Já não tenho lembrança
Resta-me uma espécie de confiança
Resta-me uma espécie de esperança

Que sentido este navio
O que é este mar
Porquê só escuridão
Bem sei, tenho que navegar

Afinal de contas...

Sou a comandante d'um navio
Só sei navegar no mar e na escuridão
Apenas me resta segurar no leme
Bem firme com a minha mão

Cristina, 25 de Novembro de 2014

23 de março de 2015

Desespero

Imagem do google

Não sei se no meio desta confusão
Serei capaz de ouvir a mim mesma.
Diálogos, diálogos...Uma constante conversação.
Eu estou no meio de uma multidão.

E tudo é triste e tudo é dor, esta impregnação;
Permeia o ar, permeia a construção.
Esta casa é uma desolação!         (grito)
Mas é aqui a minha habitação!    (grito)

E eu agradeço a cada estação
O que eu recebo por doação:
Alimento, calor, protecção...    (murmúrio)
Esta é a minha habitação...       (murmúrio)

É daqui que eu venho
E é aqui que eu estou,
Mas não é aqui que eu sou.
Eu não sou onde estou.

Ou, então, é apenas uma confusão
Estou meio surda, meio tonta,
Uma espécie de desorientação.
Alguém diz: -Uma alucinação!   (outra voz)

Tenho um enjôo, tenho uma náusea,
Tudo não tem solução!         (voz definitiva)
São portas fechadas...Uma confinação!
É o que eu sinto, quando meu pé está neste chão.

Mas eu tenho uma porta aberta   (Ufa! E eu agradeço tanto, tanto, tanto...)
E por ela entra muita "coisa boa"
Que me aquece o coração:
Uma verdade, um alento, uma consolação.

Alimenta uma esperança no coração,
Aquece uma certa felicidade sem explicação.
Protege a minha vela acesa
E garante a minha iluminação.

Cristina, 4 de Fevereiro de 2015

"Nunca mais vou bater no fundo"_Jéssica Athayde

10 de março de 2015

Sentimento

Se o vento soprasse,
com tal força,
em tua vida.

Ficarias incrédulo
com a quantidade de construções
que cairiam.

Se a chuva alagasse
e destruísse
teus terrenos de cultivo.

Ficarias muito admirado
com o que sobraria
para te alimentar.

Se a neve gelasse
e a aridez se instalasse
em tuas serras e vales.

Ficarias sem palavras
com o que acontece
na primavera.

E depois...
No dia em que uma suave brisa
amena e perfumada
te inebriasse os sentidos

E...
O sol, raiasse no céu,
esplendoroso.

Aí...
Eu ficaria sem palavras
para te falar de felicidade.

Cristina, 9 de Março de 2015 

"No inverno os ramos nus,
que parecem dormir,
trabalham em segredo
preparando-se para a primavera."
Rumi

27 de fevereiro de 2015

Poesia Objectiva

Imagem daqui













Meu querido amigo
vou contigo partilhar
algo de muito concreto
Uma ideia, um conceito,
que aflora em meu intelecto

Hoje de manhã
Quando por certa árvore passava
Comecei a pensar nos pintores
A inveja que deles tenho!
Pus-me a imaginar
A fonte d'onde eles bebem
E a imaginação logo se calou
Porque ficou sem palavras
É que eles imaginam com cores
Não imaginam com palavras
É por isso que eu tenho inveja deles
Imaginar com cores é coisa de pintores
Eu só sei imaginar com palavras

As palavras coitadinhas
têm princípio, meio e fim
Já as cores...
As cores são infinitas
Ai como eu invejo os pintores!

Só os pintores sabem...
...escrever com palavras infinitas

Por isso, te digo
Meu querido amigo
Eu, com as minhas palavras concretas,
Que mais parecem objectos,
Só posso te dizer o que conseguir escrever.

Cristina

15 de fevereiro de 2015

A Praia

Ao passear por este local, consigo perceber
Que por aqui passou uma tempestade.
Para ser mais precisa: um furacão
Que arrancou tudo à sua passagem.

A destruição é de total grandeza
Que há pedaços vividos, mas não sentidos;
Que ficam boiando nas águas, ainda agitadas,
De um mar que ainda não reconhece a sua praia.

A destruição é de total grandeza
Que a sujidade impregna a paisagem
E para onde quer que se olhe só se vê dor.
Sim, porque dói ver a beleza destruída!

Até as nuvens densas e pesadas no céu
Insistem em tapar o sol esplendoroso
Que anuncia a harmonia do porvir,
Depois d'uma destruição de total grandeza.

Cristina, 27 de Março de 2014

Fraternidade

Há distância de algumas horas,
Ainda está gravado no meu intelecto.
Naquele momento exacto, eu senti algo muito real.
Eu vi um pedaço de realidade dentro de mim.

Era um espaço amplo, aberto, iluminado,
Tranquilo e definido por uma única lei.
Não sei, mas desconfio...apenas uma lei impera
E tudo é simplesmente fraternidade.

Aqui eu concedo, para que me seja concedido;
Eu permito, para que me seja permitido.
Aqui eu dou, para que eu obtenha;
Enfim liberto, para que eu seja libertada.

É um ponto de encontro de mim comigo mesma,
Onde todos os outros se transformam em mim.
É uma sala de espelhos onde eu estou reflectida,
Olhando para ti eu sei o que eu sou agora.

Cristina, 26 de Março de 2014

12 de fevereiro de 2015

Tudo acontece em mim













Nem no futuro...
Nem no passado...

Nem nas outras pessoas...
Nem em outros lugares...

Estar em mim,
O lugar onde nasci
E onde me criei.
O lugar onde morrerei,
Para depois renascer
Renovada e fresca.

Depois do mergulho ao fundo
Imerjo, ansiosa por respirar,
Por abrir os olhos e ver,
Cada vez mais nítido.

Agora as folhas outonais
São ainda mais lindas.

Cristina, 4 de Dezembro de 2013