19 de julho de 2015

Não digam...

Serra do Caramulo















Não digam...
a
Não digam que não está
à frente dos olhos de todos.
Não digam,
porque eu vejo à frente dos meus.

Quem ordena as árvores
para que nunca se esqueçam,
nunca, de a cada outono
pintar suas folhas de mil cores?

Não digam...

Não digam que não está
à frente dos olhos de todos.
Não digam,
porque eu vejo à frente dos meus.

Quem comanda o nascimento
de um bebé da barriga
de sua mãe? Que o ama.
Quem lhe diz quando chega a hora?

Não digam...

Não digam que não está
à frente dos olhos de todos.
Não digam,
porque eu vejo à frente dos meus.

E a subtileza agradável e doce
dos vales e das serras verdejantes?
Ao olhar o firmamento e sentindo
o seu vento nos batendo no rosto.

Não digam...

Não digam que não está
à frente dos olhos de todos.
Não digam,
porque eu vejo à frente dos meus.

E o frescor d'um mergulho no mar?

E a alegria do sol sorrindo gratuito?

E a brisa da tarde varrendo a areia,
num pôr-do-sol de inesquecível beleza?

Não digam...

Não digam que não está
à frente dos olhos de todos.
Não digam,
porque eu vejo à frente dos meus.

E à noite? Sob um céu estrelado?

Não digam...

Nem aos grilos cantando o verão.

Nem aos enamorados.

Cristina, 1 de Dezembro de 2014

10 de julho de 2015

Aqui, agora



















Nestes dias de céu branco
Vive-se aquele "igual"
Tudo é áspero e desnudo
Uma casca sobre o que é real

Nestes dias de céu branco
Tenho um pé em cada lado
Meus olhos virados p'ra cima
Fico, assim, imóvel, neste estado

Tenho sonhos, tenho ânsias
Minha vontade é um furacão
Um motor em funcionamento
Recolho-me e tudo é imensidão

Por um momento expludo
E consigo abraçar o mundo
Regresso ao meu caminho
Sorrio e sigo no curso do rio

Um prazer imenso em nada
Uma alegria só por existir
A simplicidade da natureza
contida no vôo d'um colibri

Árvores desnudas em fundo azul
Pedras musgadas, desordenadas
Vento passando vai-me abraçando
Agita as sombras e lembra-me o sol

Cresce-me ânsia no peito
Por descobrir o que eu não sei
Quero ir, mas quero ir a correr
P'ra chegar lá ao amanhecer

Depois...

Sorrio mais uma vez
E fico quieta de novo
O sol parado no céu
Tirou-me dos olhos este véu

Por fim...

Regresso aos meus pés
E abro meus olhos de novo
Acordo devagar, saio desta visão
Dou o primeiro passo

E vou caminhando por este chão...

Cristina, 18 de Fevereiro de 2015

7 de julho de 2015

Pequeno Pedaço de Paraíso

O portão do meu desejo
É onde eu quero
Um dia
Chegar
Para ser
Ainda mais feliz

Eu quero poder descer
Aqueles degraus de pedra
Ladeados de verdura
E na primavera
De narcisos amarelos
E túlipas multicolores

Parecem poucos degraus
Eu sei...
São só quatro ou cinco
Mas têm o valor
De uma vida inteira

E quando meu pé tocar
Aquele granito frio e áspero

Minha mão vai segurar
Com firmeza a tua mão
...pequenina

E quando meus olhos
Encontrarem os teus
...pestanudinhos

Vamos dizer segredos
Na linguagem do universo

Cristina, 8 de Maio de 2015

Deixa-me, só

Parte integrante da instalação artística "Umbrella Sky Project" (Águeda)

Deixa-me, só.
Acaso sabes tu o que eu sou?

Observa uma tartaruga centenária
nadando, em pleno oceano, devagar,
tão devagar, quase imóvel...
Acaso acha-la perdida?

Deixa-me, só.
Acaso sabes tu o que eu sou?

Vê um bando de andorinhas
cantando, no meio do céu,
a anunciação da primavera.
Acaso achas sua alegria desnecessária?

Deixa-me, só.
Acaso sabes tu o que eu sou?

E a árvore imponente,
sozinha no meio do prado,
sabendo apenas da sucessão das estações.
Acaso desvalorizas sua quietude?

Deixa-me, só...

E um pedaço de relva?
Acaso acha-lo insignificante?
Poderá ele esquecer-se, algum dia,
de realizar sua fotossíntese?

E o sol...?

E a lua...?

E a galáxia...?

E o universo inteirinho...
Acaso acha-lo inconsciente
de sua infinitude?

Deixa-me, só.
Tu não sabes o que eu sou

Cristina, 23 de Março de 2015