29 de junho de 2017

O fundo do poço

Era uma vez um menino que vivia no fundo de um poço. Ele já nem se lembrava como lá tinha ido parar, mas ele vivia no fundo de um poço, há já muito tempo... tanto, que ele já nem se lembrava quando lá tinha ido parar.

No fundo de um poço não há amigos para brincar, mas este menino aprendeu a brincar com as aranhas, os ratos e os escorpiões. Ele nem tinha medo que o escorpião o ferroasse, porque ele era muito corajoso.

De vez em quando visitava-o uma libelinha, que mais parecia uma fada. Era tão bonitinha! As suas asinhas emitiam luz! Meu deus, como é possível?
- Nunca vi uma libelinha a emitir luz... nunquinha... este mundo lá fora é meio doido! Pensou o menino.

Mas havia uma explicação que o menino desconhecia. A libelinha vivia perto de um riacho muito tranquilo e de águas mansas. Nas margens havia aquele montão de flores e ervinhas a perder de vista. Quando o vento passava e as beijava, uma a uma, parecia uma sinfonia. Nem vou falar das árvores, porque quero ir directo ao principal, mas posso dizer que eram tão farfalhudas e verdes que a sua sombra era um descanso para os viajantes que por ali passavam...

O que acontecia era que, durante o dia, o sol brilhava tão forte e tão amarelinho, no céu azul, que os seus raios enchiam tudo de luz. Por isso, à noite, as asas da libelinha pareciam mágicas. Até os pirilampos tinham uma pontinha de inveja dela!

A libelinha Luzidia lá ia, mais uma vez, visitar o seu amiguinho do fundo do poço, mas... Hoje há algo diferente! Ele não está lá.
- Estranho! Pensou ela.
- Nesta escuridão, como terá ele achado o caminho para sair? Este poço é tão fundo e tão escuro! Disse

Ao ouver a expressão de intrigada da Luzidia, o escorpião, que era de poucas palavras, disse:
- Ele subiu pelas paredes do poço. É só o que eu sei!
Então a aranha, que era muito atenta, explicou melhor.
- Com a luz que a Luzidia trazia ao poço, o menino pôde ver que as paredes do poço podiam ser usadas como escadas! E foi o que ele fez!

Enquanto os três bichinhos conversavam, o ratinho observava-os e escutava-os e, a cada colocação, de cada um deles, ele assentia...

- Só falta uma coisa!

Finalizou o ratinho, com a voz bem colocada.

- O mais difícil! Acrescentou.

Mas o que poderia ser o mais difícil?

Hum...!?

- A coragem! Meus amigos.
- A coragem! Só quando ele teve coragem é que subiu!

Rematou, triunfante, o ratinho.

Realmente o ratinho tinha razão no que dizia...

Então os quatro ficaram em silêncio, imaginando os lugares longínquos que o menino visitaria. Agora tudo estava em paz. Os bichinhos ficaram tranquilos, porque sabiam que era assim que devia ser.

Cristina
Cidade de Sorocaba (Brasil)
12 de Maio de 2013
00:22

"Coragem é uma decisão"_Moisés Esagui

8 de junho de 2017

Deste-me Tempo

quando me deste tua mão
estava eu desfalecida no chão
morta-viva - sem reacção
luz apagada num porão fechada

vieste e quiseste ficar
!?
(minha mente perde-se neste questionar)
quem está a definhar
não se lembra:
o universo está sempre a aprontar

partida que estava... meus pedaços
feita de nós em vez de laços
espinhos moldados do aço
...sempre a olhar cá de baixo...

✿✿✿

teu doce aconchego e calor
aliviou e sanou tanta dor
sem que eu soubesse supor
que isso era o teu amor

✿✿✿

acreditas tu que eu estava
ainda assim desconfiada
!?
... tudo o que me davas
... do que sentia quando me abraçavas

tão grande era a cegueira
água seca d'uma torneira
achada, mas sem eira-nem beira
...
a prece de uma vida inteira

✿✿✿

hoje sou feita de mim
pinto-me com as cores que eu escolhi
dentro do meu peito... carmim
carrego o vôo d'um colibri

iluminei a escuridão - fiz meus lutos
convivo com os meus fantasmas...
mas não lhes presto culto
afago minhas saudades e não me iludo
sei que sou amputada...
...mas não de tudo...

é que fui podada pela vida
no tear do universo tecida
com as cores de mim mesma tingida
sou eu-una e indivisível.

Cristina, 11 de Maio de 2017